{"id":2730,"date":"2026-05-28T10:21:31","date_gmt":"2026-05-28T13:21:31","guid":{"rendered":"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/?p=2730"},"modified":"2026-05-28T10:21:31","modified_gmt":"2026-05-28T13:21:31","slug":"basta-de-feminicidios-isso-e-muito-urgente-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/basta-de-feminicidios-isso-e-muito-urgente-mesmo\/","title":{"rendered":"&#8220;Basta de feminic\u00eddios! Isso \u00e9 muito urgente mesmo!&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Paulo Andr\u00e9 Leit\u00e3o<br \/>\nFotos de Fred Jord\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><em>MedusaMusaMulher<\/em> revisita o cl\u00e1ssico mito grego de Medusa. Violada pelo deus Poseidon, provoca o ci\u00fame da deusa Atena, que a amaldi\u00e7oa, e termina degolada. A hist\u00f3ria traduz a regra, ainda hoje vigente, de punir a v\u00edtima. Fabiana Pirro interpreta Medusa, protagonizando um videoarte de dez minutos de dura\u00e7\u00e3o, gravado na Fran\u00e7a. A exibi\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo \u00e9 seguida de performance no palco do Instituto Marcos Hacker, com cerca de trinta minutos. A cria\u00e7\u00e3o da performance, concebida e vivida por Fabiana, \u00e9 de Breno Fittipaldi; o texto, de Cida Pedrosa; Silvia de G\u00f3es poetiza o videoarte.  <\/p>\n<p><em>MedusaMusaMulher<\/em> estreou em 2018, andou pelo Brasil e aporta de novo no Recife em apresenta\u00e7\u00e3o \u00fanica, \u00e0s 20h de s\u00e1bado (30). De l\u00e1 pra c\u00e1, o tempo,  desgra\u00e7adamente, n\u00e3o mudou o quadro de viol\u00eancia contra as mulheres em nosso pa\u00eds. Apenas exigiu da produ\u00e7\u00e3o atualizar o n\u00famero de casos oficialmente registrados e citados por Fabiana.   <\/p>\n<p><strong>Revista Ara\u00e7\u00e1 &#8211; O que fez voc\u00ea voltar ao mito de Medusa?<br \/>\nFabiana Pirro<\/strong> &#8211; Eu acho que a gente precisa recontar muitas hist\u00f3rias. Quando chegou pra mim a vers\u00e3o de que Medusa tinha sido violada, ruiu a vers\u00e3o de que ela era um monstro. Medusa foi amaldi\u00e7oada pelo mesmo motivo do que ocorre hoje, a culpabiliza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima. Quantas mulheres ainda sofrem por isso e s\u00e3o amaldi\u00e7oadas, eliminadas da sociedade! Como pra mim o teatro \u00e9 o agora, o urgente, o agor\u00edssima, eu senti a necessidade de contar a hist\u00f3ria de Medusa no teatro com base no que acredito porque \u00e9 no teatro que me sinto poderosa. <\/p>\n<p><strong>Revista Ara\u00e7\u00e1 &#8211; De que forma sua performance atualiza o mito?<br \/>\nFabiana Pirro<\/strong> &#8211; Medusa j\u00e1 passou por v\u00e1rios sentimentos dentro de mim, Primeiro, o de revolta. Com o passar do tempo, outros sentimentos se misturaram \u00e0 revolta, mas ela permanece porque as mulheres continuam a ser violentadas no Brasil. Os n\u00fameros de casos de viol\u00eancia sempre crescem, eu tenho que atualiz\u00e1-los. S\u00e3o estat\u00edsticas dolorosas que eu tenho que levar para a cena.  <\/p>\n<p><strong>Revista Ara\u00e7\u00e1 &#8211; Que entendimento voc\u00ea tem, simbolicamente, do deus que violou Medusa?<br \/>\nFabiana Pirro<\/strong> &#8211; \u00c9 o patriarcado, o masculino achar que tem o dom\u00ednio sobre os corpos das mulheres, matar ao t\u00e9rmino de um relacionamento, cortar o  cabelo da mulher para que ela n\u00e3o tenha mais a for\u00e7a e a beleza do cabelo. Isso \u00e9 comum, informa\u00e7\u00f5es das viol\u00eancias chegam pra mim, inclusive em cena. Tem uma frase que eu digo na performance &#8211; &#8220;Devolvam os meus cabelos&#8221; &#8211; que \u00e9 para o patriarcado mesmo. <\/p>\n<p><strong>Revista Ara\u00e7\u00e1 &#8211; O deus \u00e9 um homem qualquer?<br \/>\nFabiana Pirro<\/strong> &#8211; O deus \u00e9 um homem qualquer. Os homens se endeusam uns aos outros. \u00c9 uma coisa muito antiga, \u00e9 cultural, infelizmente. N\u00e3o tem mais como a gente se calar, que era o que acontecia at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s. <\/p>\n<p><strong>Revista Ara\u00e7\u00e1 &#8211; A Medusa que voc\u00ea interpreta \u00e9 uma vencedora?<br \/>\nFabiana Pirro<\/strong> &#8211; Ela \u00e9 uma sobrevivente.<\/p>\n<p><strong>Revista Ara\u00e7\u00e1 &#8211; A sua personagem instiga propositadamente a plateia ou voc\u00ea se mant\u00e9m distante?<br \/>\nFabiana Pirro<\/strong> &#8211; N\u00e3o, eu estou o tempo todinho de m\u00e3os dadas com a plateia. Prefiro at\u00e9 fazer as apresenta\u00e7\u00f5es em pra\u00e7as, nas ruas, mas, mesmo em teatros convencionais, o olhar de Medusa \u00e9 o contato mais importante porque vem de uma figura de quem se diz que o olhar petrifica. <\/p>\n<p><strong>Revista Ara\u00e7\u00e1 &#8211; A rea\u00e7\u00e3o dos homens que est\u00e3o na plateia, qual tem sido, geralmente?<br \/>\nFabiana Pirro<\/strong> &#8211; Regra geral, sinto uma cumplicidade. Um ou outro virou as costas e saiu, como quem diz &#8220;essa conversa n\u00e3o \u00e9 comigo, eu n\u00e3o sou esse homem&#8221;. Tudo bem, noventa e nove por cento s\u00e3o os homens olhando, refletindo. Eu fa\u00e7o perguntas para a plateia, tem perguntas que fa\u00e7o para os homens, e as respostas s\u00e3o sempre l\u00facidas, como &#8220;que direito tem um deus de violar uma sacerdotisa?&#8221;<\/p>\n<p><strong>Revista Ara\u00e7\u00e1 &#8211; A sua vis\u00e3o do homem, ent\u00e3o, \u00e9 otimista? A sua Medusa acha que o homem brasileiro tem salva\u00e7\u00e3o?<br \/>\nFabiana Pirro<\/strong> &#8211; A gente tem que acreditar e eu acredito no poder da sensibiliza\u00e7\u00e3o que a arte traz. Acho que os homens est\u00e3o atentos e at\u00e9 entendendo que essa luta n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 das mulheres. Eu deixo isso muito claro. Tem gente que acha que feminismo s\u00e3o as mulheres contra os homens. Eu tamb\u00e9m falo um pouco sobre isso, mas n\u00e3o dou uma aula de hist\u00f3ria porque n\u00e3o sou professora. Eu acredito no poder da reflex\u00e3o. Um professor de hist\u00f3ria que assistiu \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o no sert\u00e3o do Cariri me disse: &#8220;Eu n\u00e3o sabia dessa vers\u00e3o da Medusa. Muito obrigado por ter me aberto os olhos&#8221;. O teatro tem uma forma po\u00e9tica de educar, e eu acho isso t\u00e3o lindo! <\/p>\n<p><strong>Revista Ara\u00e7\u00e1 &#8211; A sua Medusa \u00e9 pac\u00edfica?<br \/>\nFabiana Pirro<\/strong> &#8211; Ela \u00e9 pac\u00edfica, mas est\u00e1 viva. Eu, Fabiana, sou muito pac\u00edfica, mas no teatro tenho minhas explos\u00f5es. Acho que a gente precisa tocar o cora\u00e7\u00e3o e pra isso tem que ter delicadeza, mesmo na luta. Eu acredito muito mais no poder do amor do que em qualquer outro sentimento na face da Terra. A minha Medusa tem muito de mim porque ela tem as minhas dores, misturadas com as dela. <\/p>\n<p><strong>Revista Ara\u00e7\u00e1 &#8211; Parece-me que voc\u00ea transmite, com Medusa, a convic\u00e7\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel mudar o mundo.<br \/>\nFabiana Pirro<\/strong> &#8211; Eu acredito muito nessa transforma\u00e7\u00e3o, a gente ainda pode salvar esse mundo. Basta de feminic\u00eddios, isso \u00e9 muito urgente mesmo!  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Paulo Andr\u00e9 Leit\u00e3o Fotos de Fred Jord\u00e3o MedusaMusaMulher revisita o cl\u00e1ssico mito grego de Medusa. Violada pelo deus Poseidon, provoca o ci\u00fame da deusa Atena, que a amaldi\u00e7oa, e termina degolada. A hist\u00f3ria traduz a regra, ainda hoje vigente, de punir a v\u00edtima. 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