{"id":2420,"date":"2026-05-21T12:40:34","date_gmt":"2026-05-21T15:40:34","guid":{"rendered":"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/?p=2420"},"modified":"2026-05-26T09:29:01","modified_gmt":"2026-05-26T12:29:01","slug":"rosa-maria-a-sofisticacao-da-simplicidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/rosa-maria-a-sofisticacao-da-simplicidade\/","title":{"rendered":"Rosa Maria, a sofistica\u00e7\u00e3o da simplicidade"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Edgard Homem<\/strong><\/p>\n<p>Foi aos 9 anos, em um s\u00edtio em Fragoso, Olinda, que Rosa Maria tornou-se cozinheira. O rito de passagem se deu a quatro m\u00e3os: ela preparou com Badu, seu pai her\u00f3i, uma galinha \u00e0 cabidela. &#8220;Matei, tratei, depois depenei na \u00e1gua quente&#8221;, conta. A menina Rosa n\u00e3o atinou, mas o seu destino foi tra\u00e7ado ali, naquele dia, ao acaso, como quase tudo na vida.<\/p>\n<p>Dentro das paredes centen\u00e1rias do Hotel Central, que j\u00e1 foi o edif\u00edcio mais alto do Nordeste, Rosa &#8211; agora com rec\u00e9m-completados 61 anos &#8211; tamb\u00e9m acessa mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia. Nesse espa\u00e7o, por onde passaram figuras ilustres como a estrela Carmem Miranda, o cineasta norte-americano Orson Welles e o eterno Rei do Bai\u00e3o Luiz Gonzaga, Rosa gostava de brincar pelos sal\u00f5es que um dia salvaria. &#8220;N\u00e3o queria que o hotel fechasse. Ele representa a minha vida, da minha fam\u00edlia, dos amigos que fiz aqui e que continuam comigo at\u00e9 hoje\u201d, expressa Rosa, que come\u00e7ou como camareira (seguindo os passos da m\u00e3e, Severina Maria, a Mi\u00fada), depois virou cozinheira e hoje dirige o hotel.<\/p>\n<p>Se a paix\u00e3o pelo Central ela herdou da m\u00e3e, foi o pai, Manoel Louren\u00e7o, quem despertou o gosto pela cozinha. Com ele, que trabalhou como estivador e taifeiro da Marinha do Brasil, ela aprendeu os segredos da charque desfiada crocante, que, ao lado da galinha \u00e0 cabidela, virou refer\u00eancia no Tempero da Rosa, instalado nas depend\u00eancias do pr\u00e9dio. &#8220;O card\u00e1pio aqui \u00e9 o mesmo que meu pai me ensinou\u201d, descreve. Em uma cozinha que valoriza pratos tradicionais, o refinamento tem pouco espa\u00e7o. \u201cN\u00e3o que eu n\u00e3o saiba fazer, mas o que eu realmente adoro preparar \u00e9 feij\u00e3o com carne, jerimum, maxixe\u2026 Com gosto de casa e de tradi\u00e7\u00e3o\u201d, acentua.<\/p>\n<p>Antigamente, no entanto, o estilo r\u00fastico n\u00e3o agradava os paladares da elite pernambucana. Em seu primeiro contato com panelas e condimentos, Rosa precisou se adaptar aos cortes sofisticados ap\u00f3s a experi\u00eancia como camareira. \u201cN\u00e3o gostava muito da minha primeira profiss\u00e3o. Por isso, lutei para ficar na cozinha, que era o que eu realmente queria\u201d, relata. Para conquistar espa\u00e7o no fog\u00e3o, ela precisou provar seus dotes culin\u00e1rios. \u201cMinha primeira experi\u00eancia foi cortando verduras, pois, no in\u00edcio, as pessoas n\u00e3o me davam muita oportunidade\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_2421\" style=\"width: 1090px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2421\" class=\"size-full wp-image-2421\" src=\"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Dona-Rosa-_-Hotel-Central-05.03.24-foto-_-Ruan-Pablo-05-1.jpg\" alt=\"Dona Rosa de bra\u00e7os levantados, sorridente, em uma das portas de entrada do Hotel\" width=\"1080\" height=\"720\" srcset=\"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Dona-Rosa-_-Hotel-Central-05.03.24-foto-_-Ruan-Pablo-05-1.jpg 1080w, https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Dona-Rosa-_-Hotel-Central-05.03.24-foto-_-Ruan-Pablo-05-1-980x653.jpg 980w, https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Dona-Rosa-_-Hotel-Central-05.03.24-foto-_-Ruan-Pablo-05-1-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1080px, 100vw\" \/><p id=\"caption-attachment-2421\" class=\"wp-caption-text\">Rosa celebra, uma a uma, todas as vit\u00f3rias. Foto: Ruan Pablo<\/p><\/div>\n<p>O perfume que vem da cozinha se mistura com as serestas embaladas pela voz de Rosa. \u201cCozinhar cantando sempre fez parte de mim. Meu pai era seresteiro, ent\u00e3o cresci ouvindo Nelson Gon\u00e7alves, N\u00fabia Lafayette, Elizeth Cardoso, Edith Veiga, Cl\u00e1udia Barroso, Waldick Soriano, que amo de paix\u00e3o\u201d, enumera. No entanto, quando o assunto \u00e9 m\u00fasica, para ela h\u00e1 um \u00fanico rei. \u201cQue Roberto Carlos, que nada. \u00c9 Reginaldo Rossi, claro. Primeiro vem Jesus, e depois Reginaldo, ouviu?&#8221;, avisa.<\/p>\n<p>At\u00e9 abrir m\u00e3o da estabilidade do emprego fixo pelo desejo de reerguer o Central, foram 15 anos de labuta na cozinha. Hoje, a hist\u00f3ria do hotel se divide entre antes e depois de Rosa. \u201cO pr\u00e9dio j\u00e1 estava bastante deteriorado, com muitas coisas antigas que precisavam ser renovadas. Senti que ele estava chegando ao fim, mas consegui salvar essa hist\u00f3ria. J\u00e1 dei vida nova a ele\u201d, celebra. Um dos passos mais importantes desse resgate foi a amplia\u00e7\u00e3o da capacidade, que passou de 9 para 28 quartos dispon\u00edveis para check-in.<\/p>\n<p>Sob o teto do Central, Mir\u00f3 da Muribeca fez sua poesia visceral descansar e renascer mais forte do que nunca em tr\u00eas ocasi\u00f5es. O privil\u00e9gio de Rosa em receb\u00ea-lo foi ainda maior na \u00faltima vez, em 2022, quando ele pediu para passar seu final de vida no hotel. \u201cAcho que realizei o \u00faltimo desejo de Mir\u00f3, e isso me conforta\u201d, conta. Por outro lado, ela lamenta que a escultura do poeta, instalada na avenida Rio Branco, n\u00e3o esteja no local que de fato merecia. \u201cSempre que passo pela est\u00e1tua dele, sentado ali na Rio Branco, me d\u00e1 uma dor no cora\u00e7\u00e3o. Tinha que estar aqui. Mas eu tenho algo melhor, que \u00e9 a lembran\u00e7a de Mir\u00f3 sempre comigo. E isso vale mais que tudo\u201d, afirma, emocionada.<\/p>\n<p>Rosa tamb\u00e9m acessa mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia quando o assunto \u00e9 comida junina. \u201cPara o meu pai, o S\u00e3o Jo\u00e3o era especial. Nessa \u00e9poca, ele pegava o milho seco, descascava e mo\u00eda para fazer o melhor cuscuz das nossas vidas\u201d, relembra. O p\u00e9 de moleque \u00e9 outra receita campe\u00e3 do legado do mestre Badu. \u201cPara fazer um p\u00e9 de moleque bom de verdade, \u00e9 preciso ter paci\u00eancia. Troque a canela ralada pelo pau de canela. Coloque o pau de canela no forno e, quando ficar vermelhinho, retire, quebre ele todinho e passe na peneira mais fina. Isso faz toda a diferen\u00e7a. Repita o mesmo processo com o anis-estrelado, a erva-doce e o cravo-da-\u00edndia\u201d, revela Rosa, que j\u00e1 ensinou a iguaria no programa \u00c9 de Casa, da TV Globo. &#8220;Eles ficaram impressionados porque, no Rio de Janeiro, p\u00e9 de moleque \u00e9 um doce de amendoim, completamente diferente do nosso\u201d.<\/p>\n<p>As vit\u00f3rias v\u00eam naturalmente quando se ama o que faz. E Rosa colhe o reconhecimento n\u00e3o s\u00f3 de quem passa pelo seu restaurante, como os atores Paulo Betti e Vera Holtz e o Padre J\u00falio Lancellotti, mas de gente espalhada por todo o pa\u00eds. Os saberes repassados por Badu e por ela aprimorados formaram as suas quatro filhas. Marcela \u00e9 engenheira e administradora, Marciele \u00e9 psic\u00f3loga, Maxcel\u00e2ndia \u00e9 psicopedagoga e Marcionila \u00e9 bi\u00f3loga. &#8220;Ficava do lado dele, atenta, vendo Badu cozinhar e beber. Era a sua auxiliar. Cortava as verduras, enquanto observava ele preparar os pr\u00f3prios temperos. Assim fui aprendendo os processos\u201d, revela. \u201cMinha gastronomia \u00e9 a minha hist\u00f3ria, que \u00e9 a hist\u00f3ria do povo. Os pratos que sirvo s\u00e3o heran\u00e7a dos africanos escravizados, dos ind\u00edgenas e tamb\u00e9m dos portugueses, pois meu pai tinha sangue portugu\u00eas\u201d.<\/p>\n<p>Toda essa simplicidade faz de Rosa Maria uma mulher sofisticad\u00edssima. Afinal, ela traduz toda a sua hist\u00f3ria nos pratos que v\u00e3o \u00e0 mesa. &#8220;Digo com muito orgulho que a gastronomia que pratico \u00e9 pernambucana, nordestina porque fui formada no dia a dia de um s\u00edtio simples, mas farto. L\u00e1, a gente criava porco, bode, tinha boi, galinha e dois jumentinhos. Fruta n\u00e3o faltava. Manga, caju, acerola, pitomba, jaca, sapoti. Tamb\u00e9m tinha macaxeira, inhame, batata doce, feij\u00e3o verde&#8230;&#8221;, recorda. \u201cA cozinha \u00e9 minha vida, simplesmente porque amo cozinhar, meu filho\u201d. E essa hist\u00f3ria merece um livro que, ali\u00e1s, j\u00e1 est\u00e1 a caminho.<\/p>\n<p>No Central, a receita \u00e9 simples: o sabor tem mem\u00f3ria, os clientes t\u00eam nome e o tempero \u00e9 sempre de Rosa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Edgard Homem Foi aos 9 anos, em um s\u00edtio em Fragoso, Olinda, que Rosa Maria tornou-se cozinheira. O rito de passagem se deu a quatro m\u00e3os: ela preparou com Badu, seu pai her\u00f3i, uma galinha \u00e0 cabidela. &#8220;Matei, tratei, depois depenei na \u00e1gua quente&#8221;, conta. 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