{"id":2359,"date":"2026-05-14T06:00:04","date_gmt":"2026-05-14T09:00:04","guid":{"rendered":"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/editoracao\/?p=2359"},"modified":"2026-05-25T16:53:09","modified_gmt":"2026-05-25T19:53:09","slug":"a-volta-por-cima-de-um-mestre-do-folhetim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/a-volta-por-cima-de-um-mestre-do-folhetim\/","title":{"rendered":"A volta por cima de um mestre do folhetim"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Thiago Ti\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Aguinaldo Silva nasceu em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, em 1943, em uma fam\u00edlia que n\u00e3o tinha muito al\u00e9m da vontade de que o filho estudasse. O pai trabalhava em um posto de gasolina. A m\u00e3e se chamava Maria do Carmo. Quando Aguinaldo terminou o prim\u00e1rio, a fam\u00edlia inteira se mudou para o Recife para que ele pudesse continuar nos bons col\u00e9gios, os caros, que o pai bancava com um esfor\u00e7o que Aguinaldo descreveu d\u00e9cadas depois como um sacrif\u00edcio do qual s\u00f3 compreendeu o tamanho quando j\u00e1 era adulto. Conto isso n\u00e3o para romantizar pobreza nordestina, narrativa da qual j\u00e1 temos estoque suficiente, mas porque essa origem atravessa tudo o que ele escreveu, e ignor\u00e1-la \u00e9 perder a chave da obra inteira.<\/p>\n<p>Ver esse autor ainda no centro da TV brasileira tem um sabor particular para quem \u00e9 de Pernambuco. N\u00e3o vou fingir neutralidade aqui. H\u00e1 algo que vai al\u00e9m do orgulho regional, embora ele tamb\u00e9m exista: a satisfa\u00e7\u00e3o de ver um talento com identidade forte envelhecer melhor do que muita gente que passou a vida tentando seguir o que estava na moda. Aguinaldo nunca tentou parecer contempor\u00e2neo. Talvez por isso ainda o seja.<\/p>\n<p>A cidade natal n\u00e3o aparece nas novelas de Aguinaldo como cen\u00e1rio nem como nostalgia. Aparece como m\u00e9todo. Quando criou Greenville, em &#8220;A Indomada&#8221;, cidade fict\u00edcia do interior na divisa da Bahia com Pernambuco, supostamente colonizada por ingleses, com uma aristocracia local que n\u00e3o fazia sentido nenhum e, ao mesmo tempo, era completamente veross\u00edmil, ele n\u00e3o estava inventando loucura por loucura. Estava fazendo o que as pessoas que cresceram no interior pernambucano aprendem cedo: enxergar o absurdo como dado da realidade, n\u00e3o como exagero. O Cadeirudo entrou para o imagin\u00e1rio popular com a naturalidade com que o Nordeste convive com suas pr\u00f3prias lendas, sem precisar que ningu\u00e9m explique a raz\u00e3o. \u00c9 diferente do que o audiovisual brasileiro costuma fazer quando se volta para o Nordeste, que \u00e9 transform\u00e1-lo em problema social a ser interpretado por quem veio de fora. Aguinaldo olhou para dentro e achou linguagem.<\/p>\n<p>A volta de Aguinaldo Silva \u00e0 TV Globo, com &#8220;Tr\u00eas Gra\u00e7as&#8221; (cujo \u00faltimo cap\u00edtulo ser\u00e1 exibido nesta sexta, 15 de maio), foi, antes de qualquer coisa, uma segunda chance que ele mesmo talvez n\u00e3o esperasse ganhar t\u00e3o cedo, ou t\u00e3o tarde. Em janeiro de 2020, depois de mais de quatro d\u00e9cadas de casa, a emissora n\u00e3o renovou seu contrato. O motivo talvez tenha sido o fracasso de &#8220;O S\u00e9timo Guardi\u00e3o&#8221;, novela de realismo fant\u00e1stico que n\u00e3o encontrou o fio e foi perdendo o p\u00fablico antes de ter condi\u00e7\u00f5es de se reencontrar. Sobre a sa\u00edda, Aguinaldo disse ao jornal O Globo, com a ironia seca que \u00e9 sua assinatura: \u201cSempre disse que n\u00e3o tinha m\u00e1goa da Globo. Pelo contr\u00e1rio, devo muito. E ela tamb\u00e9m me deve. Estamos empatados e seremos felizes para sempre\u201d. A frase \u00e9 boa demais para ser simples. Tem orgulho, tem acerto de contas, tem humor e n\u00e3o resolve nada, que \u00e9 exatamente o que fazem as melhores frases de Aguinaldo Silva.<\/p>\n<p>&#8220;Tr\u00eas Gra\u00e7as&#8221; chegou ainda carregando outro peso involunt\u00e1rio: estreou logo depois do remake de &#8220;Vale Tudo&#8221;, trama da qual Aguinaldo foi um dos autores originais, ao lado de Gilberto Braga e Leonor Bass\u00e8res. A adapta\u00e7\u00e3o reacendeu a mem\u00f3ria afetiva de uma gera\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o replicou a for\u00e7a pol\u00edtica da vers\u00e3o original. Aguinaldo entrou em cena depois disso, e parte dos telespectadores ainda estava com aquele sabor agridoce na boca.<\/p>\n<p>A nova hist\u00f3ria foi escrita com Virg\u00edlio Silva e Z\u00e9 Dassilva e trouxe um detalhe que muitos n\u00e3o perceberam de imediato: pela primeira vez, Aguinaldo ambientou o enredo em S\u00e3o Paulo, em uma comunidade da Zona Norte da cidade. A decis\u00e3o foi calculada, pensada para reconquistar o p\u00fablico paulistano que vinha se distanciando do hor\u00e1rio nobre da Globo. E funcionou, ao menos no que a televis\u00e3o ainda mede com obsess\u00e3o: audi\u00eancia, chegando a picos de 27 pontos no Ibope.<\/p>\n<p>Tudo acontece em torno de tr\u00eas mulheres de gera\u00e7\u00f5es diferentes da mesma fam\u00edlia. Em comum, o fato de terem enfrentado uma gravidez na adolesc\u00eancia e criado as filhas sem a presen\u00e7a paterna. Gerluce \u00e9 a protagonista, vivida por Sophie Charlotte em sua primeira experi\u00eancia como mocinha do hor\u00e1rio das nove, uma mulher que articula um roubo por justi\u00e7a social sem pedir licen\u00e7a ao melodrama convencional. Dira Paes faz L\u00edgia e Alana Cabral \u00e9 Jo\u00e9lly, completando o trio que d\u00e1 nome \u00e0 novela. Do outro lado, Grazi Massafera entregou Arminda, sua primeira grande vil\u00e3, com uma presen\u00e7a que tomou as redes sociais semana ap\u00f3s semana. Murilo Ben\u00edcio interpreta Ferette, empres\u00e1rio e pol\u00edtico c\u00famplice em um esquema que vitimava os mais pobres. Os dois juntos sustentaram o cora\u00e7\u00e3o da trama durante boa parte do folhetim.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo merece uma nota: &#8220;Tr\u00eas Gra\u00e7as&#8221; remete \u00e0 escultura de Antonio Canova, obra neocl\u00e1ssica inspirada nas tr\u00eas divindades do encanto, da alegria e da beleza na mitologia grega. Na novela, a pe\u00e7a que desencadeia o enredo \u00e9 uma est\u00e1tua cenogr\u00e1fica inspirada nessa tradi\u00e7\u00e3o, que durante muitos cap\u00edtulos ficou escondida no quarto secreto da mans\u00e3o de Arminda. Aguinaldo usa a refer\u00eancia sem precisar explic\u00e1-la. Quem conhece Canova encontra uma camada a mais. Quem n\u00e3o conhece acompanha a trama sem perder nada. Esse equil\u00edbrio \u00e9 uma das habilidades mais dif\u00edceis de qualquer dramaturgo, e ele exerce isso h\u00e1 d\u00e9cadas sem aparente esfor\u00e7o.<\/p>\n<div id=\"attachment_2362\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2362\" class=\"wp-image-2362\" src=\"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-12-at-16.51.59-683x1024.jpeg\" alt=\"Arlete Salles\" width=\"450\" height=\"675\" \/><p id=\"caption-attachment-2362\" class=\"wp-caption-text\"><br \/>A conterr\u00e2nea Arlete Salles viveu v\u00e1rias personagens criadas pelo autor.<br \/>Foto: Victor Pollak\/TV Globo<\/p><\/div>\n<p>A pernambucana Arlete Salles marcou presen\u00e7a na novela como Josefa, m\u00e3e da vil\u00e3 Arminda, e isso n\u00e3o \u00e9 uma escala qualquer. Ela faz parte do universo do conterr\u00e2neo desde &#8220;O Outro&#8221;, passando por &#8220;Tieta&#8221;, &#8220;Pedra sobre Pedra&#8221;, &#8220;Fera Ferida&#8221;, &#8220;Porto dos Milagres&#8221; e &#8220;Fina Estampa&#8221;. S\u00e3o quase 40 anos de parceria, e parceria \u00e9 mesmo a palavra certa, n\u00e3o conviv\u00eancia profissional. Aguinaldo cria mulheres que parecem ter hist\u00f3ria antes do primeiro cap\u00edtulo, com um passado que a tela n\u00e3o precisa revelar inteiro. Arlete n\u00e3o explica a personagem. Deixa ela existir. \u00c9 uma distin\u00e7\u00e3o pequena na descri\u00e7\u00e3o e enorme na tela.<\/p>\n<p>Ex-rep\u00f3rter policial do cl\u00e1ssico jornal \u00daltima Hora, Aguinaldo nunca foi um autor que tentou se atualizar \u00e0 for\u00e7a. N\u00e3o correu atr\u00e1s de linguagem de s\u00e9rie, n\u00e3o tentou parecer menos folhetinesco do que \u00e9, n\u00e3o pediu desculpa pelo melodrama. Continua fazendo mulheres fortes que entram nas nossas casas e ali permanecem, vil\u00f5es que o p\u00fablico odeia com afeto, bord\u00f5es que sobrevivem \u00e0s novelas por anos. Nazar\u00e9 Tedesco \u00e9 o caso mais evidente, eternizada pelas cenas de escada e que virou meme antes mesmo que a palavra existisse no vocabul\u00e1rio cotidiano. Antes dela vieram Perp\u00e9tua, Adma, Maria Regina. Do outro lado, o mordomo Cr\u00f4, Giovanni Improtta, T\u00e9o Pereira e Jos\u00e9 Alfredo, o Comendador. Gente que existiu al\u00e9m da tela. E Maria do Carmo, claro, a protagonista de &#8220;Senhora do Destino&#8221; inspirada em sua pr\u00f3pria m\u00e3e, que comoveu o pa\u00eds na busca por uma filha sequestrada ainda beb\u00ea. Seus personagens foram mais longe do que muita teoria sobre cultura popular.<\/p>\n<p>A \u00faltima palavra, como quase sempre, fica com Maria Altiva Pedreira de Mendon\u00e7a e Albuquerque, vivida por Eva Wilma em &#8220;A Indomada&#8221;: \u201cOxente, my God\u2026 Aguinaldo Silva is the ABSOLUTE autor das narrativas brasileiras\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Thiago Ti\u00e3o Aguinaldo Silva nasceu em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, em 1943, em uma fam\u00edlia que n\u00e3o tinha muito al\u00e9m da vontade de que o filho estudasse. O pai trabalhava em um posto de gasolina. A m\u00e3e se chamava Maria do Carmo. 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