{"id":2354,"date":"2026-05-14T06:00:36","date_gmt":"2026-05-14T09:00:36","guid":{"rendered":"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/editoracao\/?p=2354"},"modified":"2026-05-25T12:28:12","modified_gmt":"2026-05-25T15:28:12","slug":"a-forca-de-india-morena-rompe-a-lona-e-brilha-na-tela-em-mambembe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/a-forca-de-india-morena-rompe-a-lona-e-brilha-na-tela-em-mambembe\/","title":{"rendered":"A for\u00e7a de \u00cdndia Morena rompe a lona e brilha na tela em Mambembe"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Pedro Cunha<\/strong><\/p>\n<p>Antes de se acenderem as luzes,  \u00cdndia Morena presta aten\u00e7\u00e3o no sil\u00eancio que antecede o espet\u00e1culo. Gosta do barulho das cordas sendo puxadas, do cheiro da lona, do movimento apressado de quem monta o picadeiro poucas horas antes de chegar a plateia. Aos 82 anos, conhece cada ru\u00eddo do circo como quem conhece o pr\u00f3prio corpo. N\u00e3o por acaso. H\u00e1 mais de sete d\u00e9cadas, a artista pernambucana construiu sua vida inteira dentro dele: entre viagens, aplausos, trag\u00e9dias, amores, perdas e resist\u00eancia. Agora, essa trajet\u00f3ria ganha dimens\u00e3o nacional no cinema com \u201cMambembe\u201d, novo longa de Fabio Meira,  que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 14. <\/p>\n<p>Patrim\u00f4nio Vivo de Pernambuco desde 2006, \u00cdndia Morena \u00e9 a grande for\u00e7a emocional do filme, que mistura document\u00e1rio e fic\u00e7\u00e3o para acompanhar artistas de circos itinerantes do Norte e Nordeste. No centro da narrativa, sua presen\u00e7a parece condensar uma mem\u00f3ria coletiva do circo popular brasileiro: a arte feita na estrada, sustentada pela persist\u00eancia de artistas que continuam existindo mesmo diante da precariedade.<\/p>\n<p>\u201cEsse filme mexeu muito comigo porque ele mostra o circo como ele realmente \u00e9. Tem luta, tem alegria, tem cansa\u00e7o, mas tem tamb\u00e9m muito amor pelo que a gente faz\u201d, diz \u00cdndia Morena. \u201cQuem vive de circo aprende cedo que precisa continuar mesmo quando tudo parece dif\u00edcil.\u201d<\/p>\n<p>Nascida Margarida Pereira de Alc\u00e2ntara, no Recife, ela come\u00e7ou a trabalhar ainda crian\u00e7a para ajudar a fam\u00edlia depois da morte do pai. Cresceu pescando mariscos no mangue, em Afogados, enquanto tentava proteger os irm\u00e3os da fome. Mas havia algo que a acompanhava desde cedo: a vontade de cantar. Fazia apresenta\u00e7\u00f5es improvisadas para vizinhos, decorava can\u00e7\u00f5es ouvidas no r\u00e1dio e transformava a rua em palco.<\/p>\n<p>O primeiro encontro com o circo veio em um concurso de calouros promovido por uma companhia itinerante na Vila S\u00e3o Miguel, nos arredores de Afogados. Foi recebida com deboche por parte do p\u00fablico. \u201cNaquele dia eu pensei: ou eu chorava ou mostrava quem eu era. Resolvi cantar\u201d, relembra. A apresenta\u00e7\u00e3o emocionou a plateia e mudou o rumo de sua vida.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois, \u00cdndia j\u00e1 estava integrada ao universo circense. Aprendeu trap\u00e9zio, contorcionismo, acrobacia, escada girat\u00f3ria, interpreta\u00e7\u00e3o e canto. Tornou-se uma artista m\u00faltipla, dessas que entram e saem do espet\u00e1culo o tempo inteiro. Passou por grandes companhias, cruzou fronteiras pela Am\u00e9rica do Sul e ajudou a consolidar o nome do circo pernambucano dentro e fora do Brasil.<\/p>\n<div id=\"attachment_2322\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2322\" src=\"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Mambembe_divulgacaoRoseiraFilmes-1024x576.jpg\" alt=\"Grupo de pessoas sentadas \u00e0 mesa\" width=\"1024\" height=\"576\" class=\"size-large wp-image-2322\" srcset=\"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Mambembe_divulgacaoRoseiraFilmes-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Mambembe_divulgacaoRoseiraFilmes-980x552.jpg 980w, https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Mambembe_divulgacaoRoseiraFilmes-480x270.jpg 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" \/><p id=\"caption-attachment-2322\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Roseira Filmes \/ Divulgac\u0327a\u0303o<\/p><\/div>\n<p>\u201cMambembe\u201d captura essa dimens\u00e3o humana. Fabio Meira evita transformar \u00cdndia em uma figura distante ou folcl\u00f3rica. O filme se interessa por sua intelig\u00eancia, seu humor afiado, sua capacidade de observar o mundo e transformar dor em narrativa. \u201cO circo me ensinou tudo. Me ensinou a trabalhar, a criar coragem, a n\u00e3o baixar a cabe\u00e7a. Foi o lugar onde aprendi que uma mulher pode  ocupar espa\u00e7o\u201d, revela \u00cdndia. Em cena, ela fala do circo como quem fala de um organismo vivo.<\/p>\n<p>Mas a vida sob a lona tamb\u00e9m carregava viol\u00eancias silenciosas.  \u00cdndia enfrentou viol\u00eancia dom\u00e9stica, preconceito e rela\u00e7\u00f5es abusivas dentro de um ambiente historicamente duro para mulheres circenses. Em muitos circos da \u00e9poca, mulheres desacompanhadas sequer eram aceitas. Ela permaneceu.<\/p>\n<p>\u201cTeve um tempo em que eu achava que precisava suportar tudo para continuar trabalhando. A gente vivia com medo de perder espa\u00e7o, de ser deixada para tr\u00e1s, de n\u00e3o conseguir mais sustentar a fam\u00edlia. Muitas mulheres do circo passaram por isso em sil\u00eancio. Depois eu entendi que ningu\u00e9m tinha o direito de apagar minha voz, minha coragem e tudo o que constru\u00ed dentro do picadeiro com tanto esfor\u00e7o&#8221;, revela. <\/p>\n<p>&#8220;Mambembe&#8221; tamb\u00e9m funciona como um retrato melanc\u00f3lico do desaparecimento gradual dos circos itinerantes brasileiros. O filme come\u00e7ou a ser pensado h\u00e1 mais de 15 anos e acabou incorporando \u00e0 narrativa as mudan\u00e7as do tempo, as interrup\u00e7\u00f5es da produ\u00e7\u00e3o e o envelhecimento natural dos pr\u00f3prios personagens.<\/p>\n<p>Em meio a isso, \u00cdndia Morena surge como s\u00edmbolo de perman\u00eancia. Mesmo fora da rotina intensa dos picadeiros, continua participando de a\u00e7\u00f5es culturais, palestras e encontros com jovens artistas. Mant\u00e9m viva a defesa dos direitos dos circenses e fala frequentemente sobre a necessidade de pol\u00edticas p\u00fablicas para impedir o desaparecimento dessa tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cHoje est\u00e1 tudo mais dif\u00edcil para quem vive do circo. Antigamente a gente chegava nas cidades e encontrava mais acolhimento, mais espa\u00e7o, mais incentivo para trabalhar. Hoje s\u00e3o muitas exig\u00eancias, muito gasto, pouca ajuda e quase nenhum apoio para os artistas que passam a vida inteira levando alegria para o povo\u201d, lamenta. \u201cO p\u00fablico continua gostando do circo, continua levando os filhos, continua se emocionando, mas quem est\u00e1 por tr\u00e1s da lona est\u00e1 cansado de lutar sozinho para manter essa arte viva. Se n\u00e3o houver mais cuidado com o circo itinerante, apoio cultural e pol\u00edticas p\u00fablicas de verdade, muita coisa pode desaparecer nos pr\u00f3ximos anos.\u201d<\/p>\n<p>Vivendo atualmente na Muribeca, em Jaboat\u00e3o dos Guararapes, \u00cdndia Morena divide a vida h\u00e1 mais de cinco d\u00e9cadas com Maviael Ribeiro, presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Propriet\u00e1rios e Artistas Circenses do Estado de Pernambuco (Apacepe), que acabou sendo levado ao universo do picadeiro pela pr\u00f3pria artista. Hoje, ela sonha transformar sua cole\u00e7\u00e3o de figurinos, fotografias e objetos acumulados ao longo da vida em um espa\u00e7o de mem\u00f3ria dedicado ao circo. Guarda vestidos, adere\u00e7os, recortes, imagens e lembran\u00e7as de d\u00e9cadas de estrada. Um acervo constru\u00eddo n\u00e3o apenas por objetos, mas por experi\u00eancias.<\/p>\n<p>No cinema, no entanto, talvez seu maior arquivo seja o pr\u00f3prio rosto. Em \u201cMambembe\u201d, cada ruga parece carregar uma cidade diferente, um espet\u00e1culo desmontado na chuva, uma plateia improvisada, um n\u00famero executado mesmo diante do medo. \u00cdndia n\u00e3o surge apenas como personagem de um filme. Surge como testemunha de um Brasil popular que insiste em sobreviver apesar do abandono.<\/p>\n<h2>Entre a lona e o Agreste<\/h2>\n<div id=\"attachment_2323\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2323\" src=\"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Mambembe_India_Morena_-credito-divulgacao-Roseira-Filmes-1024x576.jpg\" alt=\"I\u0301ndia Morena\" width=\"1024\" height=\"576\" class=\"size-large wp-image-2323\" srcset=\"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Mambembe_India_Morena_-credito-divulgacao-Roseira-Filmes-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Mambembe_India_Morena_-credito-divulgacao-Roseira-Filmes-980x552.jpg 980w, https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Mambembe_India_Morena_-credito-divulgacao-Roseira-Filmes-480x270.jpg 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" \/><p id=\"caption-attachment-2323\" class=\"wp-caption-text\">I\u0301ndia Morena. Foto: Roseira Filmes \/ Divulgac\u0327a\u0303o<\/p><\/div>\n<p>Grande parte da for\u00e7a de \u201cMambembe\u201d nasce no Agreste pernambucano. Entre cidades como Arcoverde e Limoeiro, o longa de Fabio Meira encontra mais do que cen\u00e1rio: encontra um territ\u00f3rio historicamente marcado pela cultura popular itinerante e pela sobreviv\u00eancia de artistas que seguem existindo \u00e0 margem das grandes estruturas culturais do pa\u00eds. \u00c9 desse interior atravessado por estradas, feiras, terrenos improvisados e lonas montadas temporariamente que o filme constr\u00f3i sua dimens\u00e3o mais pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O longa acompanha um top\u00f3grafo solit\u00e1rio, interpretado por Murilo Grossi, que cruza o caminho de tr\u00eas mulheres ligadas ao universo circense: \u00cdndia Morena, Madona Show e J\u00e9ssica, personagem vivida por Dandara Ohana. Ao longo de anos de filmagem, Fabio Meira transformou a pr\u00f3pria instabilidade da produ\u00e7\u00e3o em linguagem cinematogr\u00e1fica. O envelhecimento dos artistas, os circos desmontados e as marcas da passagem do tempo aparecem incorporados \u00e0 narrativa.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma honra fazer um filme sobre o circo e ter \u00cdndia Morena como protagonista. Ela \u00e9 a alma de \u2018Mambembe\u2019, por isso \u00e9 a figura central do cartaz\u201d, revela o diretor. \u201cEu procurava algu\u00e9m completamente diferente para o papel, mas a for\u00e7a dela acabou mudando o filme.\u201d<\/p>\n<p>O projeto come\u00e7ou a ser desenvolvido quando Fabio estudava cinema em Cuba. Em 2010, o diretor percorreu cidades do Norte e Nordeste do pa\u00eds em busca de mulheres circenses que pudessem conduzir a narrativa. Sem recursos financeiros,  o longa acabou interrompido durante quase dez anos. Quando a produ\u00e7\u00e3o foi retomada, em 2018, os personagens j\u00e1 haviam envelhecido, os circos estavam ainda mais fragilizados e o pr\u00f3prio filme havia sido transformado pela passagem do tempo.<\/p>\n<p>\u201cEu nunca desisti do filme\u201d, enfatiza Meira. \u201cNo come\u00e7o, existia uma ingenuidade muito grande de achar que conseguiria filmar rapidamente e captar recursos depois. Mas o projeto foi recusado in\u00fameras vezes. Quando consegui voltar, percebi que o tempo tinha virado parte central da narrativa.\u201d<\/p>\n<p>\u201cMambembe\u201d exp\u00f5e suas interrup\u00e7\u00f5es, questiona seus pr\u00f3prios caminhos narrativos e transforma a demora em elemento dram\u00e1tico. O resultado \u00e9 um filme que discute n\u00e3o apenas o universo circense, mas tamb\u00e9m as condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o do cinema brasileiro fora dos grandes centros e dos modelos industriais.<\/p>\n<p>Ao colocar o Agreste pernambucano no centro da narrativa, Fabio tamb\u00e9m desloca o olhar sobre Pernambuco para al\u00e9m das imagens mais recorrentes do litoral. O interior surge como espa\u00e7o de perman\u00eancia cultural, mas tamb\u00e9m de abandono. Em \u201cMambembe\u201d, os terrenos vazios onde os circos tentam se instalar, as estradas percorridas pelas caravanas e os relatos de artistas exaustos revelam um pa\u00eds em que tradi\u00e7\u00f5es populares seguem sobrevivendo muito mais pela insist\u00eancia de seus artistas do que por pol\u00edticas efetivas de preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse contexto, \u00cdndia Morena deixa de ser apenas personagem para se tornar s\u00edntese dessa resist\u00eancia. Sua presen\u00e7a em cena carrega n\u00e3o s\u00f3 a mem\u00f3ria do circo popular nordestino, mas tamb\u00e9m a dimens\u00e3o de um cinema que insiste em existir.<\/p>\n<p>\u201cEnquanto eu tiver for\u00e7a, vou continuar falando do circo. Porque o circo foi o que salvou minha vida\u201d, resume \u00cdndia. Em \u201cMambembe\u201d, a frase ultrapassa o relato pessoal e sintetiza a dimens\u00e3o humana e pol\u00edtica do longa de Fabio Meira.  <\/p>\n<p>Mais do que falar sobre espet\u00e1culo, o filme entende o circo como modo de exist\u00eancia, mem\u00f3ria e sobreviv\u00eancia afetiva. E talvez seja exatamente isso que a obra compreenda:  algumas pessoas apenas passam pelo picadeiro. Outras acabam se confundindo com ele.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Pedro Cunha Antes de se acenderem as luzes, \u00cdndia Morena presta aten\u00e7\u00e3o no sil\u00eancio que antecede o espet\u00e1culo. 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