{"id":2016,"date":"2026-05-07T07:22:35","date_gmt":"2026-05-07T10:22:35","guid":{"rendered":"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/?p=2016"},"modified":"2026-05-25T12:21:54","modified_gmt":"2026-05-25T15:21:54","slug":"alceu-faz-dos-80-um-jardim-de-girassois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/alceu-faz-dos-80-um-jardim-de-girassois\/","title":{"rendered":"Alceu faz dos 80 um jardim de girass\u00f3is"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Pedro Cunha<\/strong><\/p>\n<p>O sol ainda nem esquentou direito o casario de Olinda quando a m\u00fasica de Alceu Valen\u00e7a j\u00e1 parece estar no ar, como se viesse de algum lugar entre a mem\u00f3ria e o vento. N\u00e3o \u00e9 de hoje. H\u00e1 d\u00e9cadas, ela atravessa ladeiras, r\u00e1dios, carnavais e salas de estar. Agora, volta a se espalhar com outra camada de tempo: a dos 80 anos que se aproximam, sem pressa, mas tamb\u00e9m sem cerim\u00f4nia. Do jeito que ele quer.<\/p>\n<p>\u201cNem 8 nem 80\u201d, diz Alceu Valen\u00e7a, rindo, como quem desmonta o peso da pr\u00f3pria idade. Aos quase oito dec\u00eanios \u2014 que ele completa em 1\u00ba de julho \u2014, o artista prefere se sentir com 18. N\u00e3o como met\u00e1fora, mas como estado de esp\u00edrito. \u00c9 desse impulso que nasce a turn\u00ea \u201cAlceu 80 Girass\u00f3is\u201d, uma travessia por 10 capitais brasileiras, com parada em Olinda, no pr\u00f3ximo dia 15, no Classic Hall. Uma celebra\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 do anivers\u00e1rio redondo, mas de uma vitalidade que parece n\u00e3o obedecer ao calend\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u201cSou um eterno menino. Me sinto com oitenta ao contr\u00e1rio. Oito anos, talvez. Ou o oito tra\u00e7ado na horizontal, que \u00e9 o s\u00edmbolo do infinito. Minha m\u00e3e dizia: \u2018meu filho, voc\u00ea veio ao mundo para levar alegria \u00e0s pessoas\u2019. \u00c9 uma esp\u00e9cie de miss\u00e3o\u201d, afirma o artista. \u201cSigo ligado em infinitos volts de energia limpa, renovada, solar. Acho que \u00e9 isso que me move at\u00e9 hoje\u201d.<\/p>\n<p>Filho de S\u00e3o Bento do Una, munic\u00edpio do interior de Pernambuco, Alceu se tornou, com o tempo, uma esp\u00e9cie de cidad\u00e3o afetivo de Olinda, cidade que o adotou e que ele ajudou a reinventar no imagin\u00e1rio popular. Entre o Agreste e as ladeiras coloridas, construiu uma obra que nunca coube em r\u00f3tulos: mistura de aboio e rock, de frevo e psicodelia, de tradi\u00e7\u00e3o e inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A nova turn\u00ea marca um retorno do artista el\u00e9trico, depois de incurs\u00f5es recentes em formatos mais intimistas e concertos sinf\u00f4nicos com a Orquestra Ouro Preto, que o levaram inclusive \u00e0 Europa. No palco, ele estar\u00e1 acompanhado por uma banda afiada: Tovinho (teclados e dire\u00e7\u00e3o musical), C\u00e1ssio Cunha (bateria), Zi Ferreira (guitarra), Nando Barreto (baixo), Andr\u00e9 Juli\u00e3o (sanfona) e Costinha (flautas), al\u00e9m das participa\u00e7\u00f5es de Lui Coimbra e Nat\u00e1lia Mitre. Um time que sustenta uma apresenta\u00e7\u00e3o de duas horas, desenhada para percorrer mais de meio s\u00e9culo de carreira.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 pouca coisa. Desde \u201cPapagaio do Futuro\u201d, apresentada no Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o de 1972 ao lado de Geraldo Azevedo e Jackson do Pandeiro, at\u00e9 os cl\u00e1ssicos que atravessaram gera\u00e7\u00f5es, Alceu acumula quase 300 composi\u00e7\u00f5es registradas. Entre elas, \u201cAnuncia\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cTropicana\u201d, \u201cLa Belle de Jour\u201d, \u201cCora\u00e7\u00e3o Bobo\u201d, \u201cComo Dois Animais\u201d, can\u00e7\u00f5es que n\u00e3o apenas marcaram \u00e9poca, mas continuam sendo reapropriadas, cantadas e reinventadas pelo p\u00fablico.<\/p>\n<p>O roteiro da turn\u00ea foi montado pelo pr\u00f3prio cantor, que prefere pensar o repert\u00f3rio como uma narrativa. \u201c\u00c9 uma sequ\u00eancia po\u00e9tica. Eu sobrevoo a minha pr\u00f3pria hist\u00f3ria, desde os anos 1970 at\u00e9 agora. Tudo o que vivi est\u00e1 no HD da minha mem\u00f3ria. As m\u00fasicas v\u00e3o se encadeando como se fossem caminhos: o Agreste, o carnaval, as viagens, a inf\u00e2ncia. \u00c9 como revisitar tudo, mas com o olhar de hoje\u201d, detalha Alceu.<\/p>\n<p>A escolha do repert\u00f3rio, segundo ele, segue uma l\u00f3gica pr\u00f3pria, quase intuitiva, mas profundamente organizada. \u201cEu pensei esse show como uma narrativa po\u00e9tica. As m\u00fasicas n\u00e3o est\u00e3o ali soltas. Por exemplo, \u2018Martelo Agalopado\u2019 vem do cantador, da cultura do Agreste profundo, de onde eu nasci, em S\u00e3o Bento do Una. Logo depois, entra o repert\u00f3rio de Luiz Gonzaga, porque ele faz parte disso, ele completa essa paisagem. A\u00ed j\u00e1 vem uma outra mem\u00f3ria, de quando eu era crian\u00e7a, correndo, brincando, como em \u2018Cavalo de Pau\u2019. \u00c9 como se eu fosse costurando minha vida em forma de m\u00fasica\u201d, descreve.<\/p>\n<p>O lado foli\u00e3o, inevit\u00e1vel em sua trajet\u00f3ria, tamb\u00e9m ganha espa\u00e7o na constru\u00e7\u00e3o desse roteiro. \u201cN\u00e3o d\u00e1 pra falar de mim sem falar de carnaval. Isso est\u00e1 em mim, em Olinda, nos trios el\u00e9tricos. Em S\u00e3o Paulo, h\u00e1 mais de 10 anos, e no Recife, mas recentemente, eu saio com o bloco &#8216;Bicho Maluco Beleza&#8217; e a gente arrasta milhares de pessoas\u201d, pontua. \u201cIsso tamb\u00e9m faz parte dessa hist\u00f3ria que eu estou contando no palco, essa energia coletiva, essa alegria compartilhada\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda o Alceu viajante, o artista atravessado por geografias e afetos: \u201cTem o Alceu caminhador, o cara que vive aqui e l\u00e1. \u2018Cora\u00e7\u00e3o Bobo\u2019, por exemplo, eu compus em Paris, quando morei l\u00e1, com uma saudade imensa de Jackson do Pandeiro e de Geraldo Azevedo. Tem \u2018Pelas Ruas que Andei\u2019, que fala das ruas do Recife. E tem m\u00fasica que traz lembran\u00e7as de Nova York, mas que eu compus no Rio de Janeiro\u201d. Desta forma, os muitos momentos vividos pelo cantor se encontram dentro das can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O processo criativo, por sua vez, nem sempre obedece a uma l\u00f3gica clara. \u00c0s vezes, surge como epifania. \u201c&#8217;Anuncia\u00e7\u00e3o&#8217; foi quase um surto criativo\u201d, lembra o artista. \u201cEu estava andando em Olinda, aprendendo a tocar flauta, fazendo uma melodia. Quando entrei em casa, uma mo\u00e7a disse: \u2018Alceu, que m\u00fasica bonita voc\u00ea estava tocando, que coisa mais linda\u2019. Aquilo me chamou aten\u00e7\u00e3o. A m\u00fasica podia ter se perdido se ela n\u00e3o tivesse falado. A\u00ed fui pra cozinha, peguei um papel de p\u00e3o e comecei a escrever a letra, a l\u00e1pis. Foi assim que nasceu.\u201d<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico tamb\u00e9m segue surpreendendo o cantor. \u201cSe voc\u00ea sair comigo por a\u00ed, \u00e9 impressionante. Todo dia algu\u00e9m vem contar uma hist\u00f3ria com \u2018Anuncia\u00e7\u00e3o\u2019. Mulheres que dizem que tiveram filhos ouvindo a m\u00fasica, crian\u00e7as que contam que j\u00e1 a escutavam desde dentro da barriga. Eu fico brincando, mas ao mesmo tempo acho bonito demais. \u00c9 a m\u00fasica ganhando vida pr\u00f3pria\u201d, expressa, sem esconder o sorriso.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-2019\" src=\"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img-2753.jpg.jpeg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img-2753.jpg.jpeg 1200w, https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img-2753.jpg-980x653.jpeg 980w, https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img-2753.jpg-480x320.jpeg 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1200px, 100vw\" \/><\/p>\n<p>Os n\u00fameros ajudam a dimensionar esse alcance, mas n\u00e3o o explicam por completo. \u201cHoje \u2018Anuncia\u00e7\u00e3o\u2019 j\u00e1 passou de 200 milh\u00f5es de execu\u00e7\u00f5es no Spotify. \u2018La Belle de Jour\u2019 tem mais de 300 milh\u00f5es no YouTube. S\u00e3o n\u00fameros grandes, claro, mas o que me toca mesmo s\u00e3o essas hist\u00f3rias das pessoas, essa rela\u00e7\u00e3o afetiva que a m\u00fasica cria\u201d, reflete.<\/p>\n<p>Ao olhar para a pr\u00f3pria trajet\u00f3ria, ele reconhece as origens como for\u00e7a motriz e lembra das ra\u00edzes do interior. \u201cL\u00e1 eu ouvia aboios, toadas de vaqueiros, aquilo tudo foi entrando em mim. Depois, isso foi se misturando com outras coisas, com o urbano, com o mundo. Mas a raiz est\u00e1 ali, sempre esteve\u201d, comenta. E quase n\u00e3o esteve: antes da m\u00fasica, havia outro caminho desenhado. \u201cEu quis ser advogado, pensei em fazer concurso para promotor. Cheguei a me formar, mas n\u00e3o segui\u201d, relembra. Hoje, o cantor olha para essa mudan\u00e7a de rumo com leveza e humor. \u201cNo fim das contas, a m\u00fasica acabou me levando por um caminho muito mais bonito do que eu imaginava\u201d, diz, entre risos.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m na turn\u00ea uma dimens\u00e3o visual que amplia a experi\u00eancia. No palco, conta Alceu, um girassol gigante funciona como eixo para proje\u00e7\u00f5es que dialogam com a sua obra. A cenografia re\u00fane cria\u00e7\u00f5es de Obl\u00edquo, Radiogr\u00e1fico e Z\u00e9 Carratu, enquanto a dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u00e9 assinada por Rafael Todeschini. As imagens incluem refer\u00eancias a artistas pernambucanos, como as xilogravuras de J. Borges e o universo naif de Edmar Fernandes. Figurinos desenhados por Isabela Capeto completam a est\u00e9tica.<\/p>\n<p>Alceu detalha que a ideia da turn\u00ea partiu de dentro de casa. Foi a advogada Yan\u00ea Montenegro, companheira de mais de duas d\u00e9cadas, quem sugeriu a celebra\u00e7\u00e3o em grande escala. Ele aceitou, mas \u00e0 sua maneira: sem a rigidez de uma agenda exaustiva. \u201cO que cansa n\u00e3o \u00e9 o show, \u00e9 viajar\u201d, confessa o pernambucano. Ainda assim, mant\u00e9m o ritmo de quem caminha diariamente pela Zona Sul do Rio de Janeiro, somando cerca de 17 mil passos por dia, disciplina que ajuda a sustentar a energia no palco.<\/p>\n<p>Ao falar sobre os 80 anos, Alceu evita qualquer tom de encerramento. Pelo contr\u00e1rio: h\u00e1 uma recusa quase instintiva \u00e0 ideia de contagem. \u201cO tempo n\u00e3o tem come\u00e7o nem fim. A gente inventa essas medidas, mas a vida n\u00e3o cabe nelas. Eu n\u00e3o penso em balan\u00e7o, nem em despedida. Penso em continuidade. O palco me renova\u201d. Depois do anivers\u00e1rio, a turn\u00ea segue para novas datas no Brasil e na Europa. E h\u00e1 ainda planos de publicar um livro de cr\u00f4nicas e poemas, escritos durante viagens. Outra forma de transformar deslocamento em cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se a m\u00fasica nem sempre vem \u2014 \u201cs\u00f3 quando eu quiser ou quando minha mulher pedir\u201d, brinca o cantor \u2014, a palavra tem aparecido com frequ\u00eancia. Talvez seja mais uma maneira de organizar esse fluxo de tempo que ele insiste em n\u00e3o medir. \u201cO tempo n\u00e3o tem come\u00e7o nem fim\u201d, filosofa. No fundo, faz sentido. Porque, ao ouvir Alceu, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 justamente essa: de algo que escapa \u00e0 contagem.<\/p>\n<p>Aos quase 80 anos, Alceu prefere falar em girass\u00f3is. Esses seres que, como sua m\u00fasica, procuram sempre a dire\u00e7\u00e3o da luz. E, como num refr\u00e3o que atravessa o tempo, ele tamb\u00e9m volta: ao Recife, \u00e0 sua gente, \u00e0 sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, prometendo ecoar, em carne e palco, aquele chamado eterno do frevo de Luiz Bandeira: \u201cFoi a saudade que me trouxe pelo bra\u00e7o\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Pedro Cunha O sol ainda nem esquentou direito o casario de Olinda quando a m\u00fasica de Alceu Valen\u00e7a j\u00e1 parece estar no ar, como se viesse de algum lugar entre a mem\u00f3ria e o vento. N\u00e3o \u00e9 de hoje. H\u00e1 d\u00e9cadas, ela atravessa ladeiras, r\u00e1dios, carnavais e salas de estar. 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