{"id":1562,"date":"2026-04-30T00:04:51","date_gmt":"2026-04-30T03:04:51","guid":{"rendered":"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/?p=1562"},"modified":"2026-05-25T12:21:57","modified_gmt":"2026-05-25T15:21:57","slug":"la-vem-ela-marilia-gabi-gabriela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/la-vem-ela-marilia-gabi-gabriela\/","title":{"rendered":"L\u00e1 vem ela: Mar\u00edlia Gabi Gabriela"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Rodrigo Fischer<\/strong><\/p>\n<p>Os anos 1980 e suas mulheres ic\u00f4nicas: Hebes, Ritas, Elkes, Zez\u00e9s, Closes, Moniques, Xuxas. E ela \u2013 Barbarella, loura bela, \u00e0s vezes Cruella \u2013 a tal da Mar\u00edlia, Gabi, Gabriela. Mar\u00edlia Gabriela. Eu, uma crian\u00e7a de tr\u00eas ou quatro anos, numa manh\u00e3 qualquer de 1983 ou 1984, sentado no tapete da sala em frente a uma Telefunken, hipnotizado. Havia algo naquela mulher loira de voz grave, firme, quase teatral, que me capturava de um jeito dif\u00edcil de explicar. Ela falava abertamente sobre o que era ser mulher num pa\u00eds que ensaiava liberdades, num tempo em que dizer certas coisas ainda exigia coragem e presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Curiosamente, ela me fascinava mais do que o colorido exuberante da Turma do Bal\u00e3o M\u00e1gico anunciando o in\u00edcio das manh\u00e3s. Talvez porque ali n\u00e3o houvesse s\u00f3 brilho e m\u00fasica, mas um certo mist\u00e9rio. Um tipo de autoridade que se impunha pelo timbre, nunca pelo grito. Pela pausa. Pelo olhar.<\/p>\n<p>Eu, um menino curioso da periferia de Olinda, achava intrigante aquela figura. Talvez porque minha m\u00e3e, Zenaide \u2013 tamb\u00e9m loira, mas de voz menos grave \u2013, me oferecesse um espelho imperfeito, um quase. E nesse jogo de aproxima\u00e7\u00f5es e diferen\u00e7as, eu inventava pontes: imitava Mar\u00edlia no quintal, improvisava entrevistas com personagens invis\u00edveis, criava meu pr\u00f3prio programa de variedades. Ali, sem saber, eu experimentava linguagem, performance e escuta.<\/p>\n<p>Era menos sobre entender o que ela dizia \u2013 porque, convenhamos, eu n\u00e3o entendia quase nada \u2013 e mais sobre perceber como ela dizia. O gesto, a cad\u00eancia, a postura, a liberdade de perguntar. Talvez tenha sido um dos meus primeiros encontros com a ideia de que a palavra pode ocupar espa\u00e7os. Pode abrir caminhos.<\/p>\n<p>Essa lembran\u00e7a ficou guardada em algum lugar entre a inf\u00e2ncia e o esquecimento, at\u00e9 que, d\u00e9cadas depois, ela reapareceu com for\u00e7a inesperada. Especificamente em S\u00e3o Paulo, sentado numa plateia, assistindo ao espet\u00e1culo <strong>A \u00daltima Entrevista de Mar\u00edlia Gabriela<\/strong>, que ser\u00e1 encenado no Recife, no pr\u00f3ximo dia 7, no Teatro RioMar.<\/p>\n<p>De repente, l\u00e1 estava ela de novo. N\u00e3o mais atrav\u00e9s do vidro da televis\u00e3o, mas ao vivo, em carne, voz e presen\u00e7a. E que presen\u00e7a! Diante dela, conduzindo de forma not\u00e1vel a conversa, seu filho ca\u00e7ula, Theodoro Cochrane. A escolha, al\u00e9m de ser um recurso dramat\u00fargico engenhoso, \u00e9 um dispositivo de tens\u00e3o. Porque n\u00e3o se trata de qualquer entrevistador; trata-se de algu\u00e9m que conhece os bastidores, as fissuras, as entrelinhas e os sil\u00eancios.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo se constr\u00f3i nesse jogo inst\u00e1vel entre fic\u00e7\u00e3o e realidade. Quem entrevista quem? Onde termina a personagem p\u00fablica e come\u00e7a a mulher? E, talvez mais inc\u00f4modo: o que um filho pode \u2013 ou ousa \u2013 perguntar \u00e0 pr\u00f3pria m\u00e3e diante de uma plateia? Sem a prote\u00e7\u00e3o da quarta parede, o p\u00fablico \u00e9 convocado a participar, quase como c\u00famplice. O famoso bate-bola de Mar\u00edlia reaparece, mas agora atravessado por camadas de mem\u00f3ria, de ironia e de exposi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 momentos de humor, sim \u2013 e eles funcionam demais \u2013, por\u00e9m o que permanece \u00e9 uma esp\u00e9cie de vertigem; uma sensa\u00e7\u00e3o de estar assistindo a algo que escapa ao controle total.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de Theodoro desloca o eixo do espet\u00e1culo. N\u00e3o \u00e9 apenas sobre a trajet\u00f3ria de uma mulher p\u00fablica, mas sobre os arqu\u00e9tipos que atravessam a rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e3e e filho: confronto, admira\u00e7\u00e3o, disputa, cuidado. E feminismo, etarismo, conflitos geracionais \u2013 tudo aparece, mas nunca de forma panflet\u00e1ria. O texto provoca porque encarna essas tens\u00f5es em cena.<\/p>\n<p>E foi imposs\u00edvel n\u00e3o pensar no impacto que aquelas mulheres dos anos 1980 tiveram sobre n\u00f3s, especialmente sobre aqueles que, como eu, cresceram \u00e0 margem dos centros de poder, mas com a televis\u00e3o como janela aberta para outras possibilidades de exist\u00eancia. Elas n\u00e3o apenas ocupavam espa\u00e7os; elas redesenhavam o que era poss\u00edvel ser em p\u00fablico. No meu caso, aquela mulher de voz grave me ensinou, antes mesmo de eu saber nomear, que falar tamb\u00e9m \u00e9 um gesto pol\u00edtico. Que perguntar pode ser um ato de coragem. E que existir, \u00e0s vezes, come\u00e7a por imitar \u2013 at\u00e9 que a gente encontre a pr\u00f3pria voz.<\/p>\n<p>Agora, vendo-a ser entrevistada pelo pr\u00f3prio filho, h\u00e1 um deslocamento inevit\u00e1vel: a mulher que antes conduzia as perguntas se oferece ao risco de respond\u00ea-las. E talvez seja a\u00ed que o espet\u00e1culo ganha sua for\u00e7a maior; menos no que revela, mais no que exp\u00f5e como irresoluto. L\u00e1 vem ela. E, de algum modo, eu tamb\u00e9m venho junto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Rodrigo Fischer Os anos 1980 e suas mulheres ic\u00f4nicas: Hebes, Ritas, Elkes, Zez\u00e9s, Closes, Moniques, Xuxas. E ela \u2013 Barbarella, loura bela, \u00e0s vezes Cruella \u2013 a tal da Mar\u00edlia, Gabi, Gabriela. Mar\u00edlia Gabriela. 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