{"id":1508,"date":"2026-04-30T00:02:26","date_gmt":"2026-04-30T03:02:26","guid":{"rendered":"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/?p=1508"},"modified":"2026-05-25T12:21:58","modified_gmt":"2026-05-25T15:21:58","slug":"cronicas-do-recife-antigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/cronicas-do-recife-antigo\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nicas do Recife Antigo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Renato Valle<\/strong><\/p>\n<p>Em 2015 iniciei uma s\u00e9rie de desenhos sobre o Recife Antigo e o seu entorno. Cheguei a fazer seis, e dois ficaram inacabados. Naquele mesmo ano mudei de endere\u00e7o e me envolvi com outros projetos. Em 2020 cheguei a fazer dois pequenos para participar de um edital e interrompi a s\u00e9rie novamente, sem mesmo finalizar os dois outros de 2015. Havia o desejo de retom\u00e1-la, mas faltava algo mais forte para me impulsionar!<\/p>\n<p>No ano passado recebi um convite para expor na Torre Malakoff, essa importante edifica\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XIX, localizada no Recife Antigo. A associa\u00e7\u00e3o com a s\u00e9rie que estava engavetada foi imediata. A minha vontade era chegar a vinte desenhos, teria muito trabalho a fazer em um curto espa\u00e7o de tempo. Havia perdido um HD com registros de imagens e estudos (alguns j\u00e1 bem adiantados) e para retomar a s\u00e9rie dez anos depois teria que percorrer o bairro, observar seus personagens, suas edifica\u00e7\u00f5es, perceber o que permaneceu e o que foi transformado nesse intervalo de tempo. Apresentei a proposta \u00e0 Torre e, tendo sido aceita, mergulhei no trabalho.<\/p>\n<p>Como no in\u00edcio, usei a c\u00e2mera fotogr\u00e1fica em lugar de um bloco de esbo\u00e7os para anotar, visualmente, cenas e personagens. Tirava as fotos pensando nos desenhos que queria realizar, depois de estud\u00e1-las escolhia uma como refer\u00eancia, por\u00e9m n\u00e3o descartava as outras. Por vezes, este processo exige fazer recortes em algumas imagens, para depois junt\u00e1-las, como em um quebra-cabe\u00e7a, resultando na composi\u00e7\u00e3o que quero desenhar. Elimino ou desloco alguns elementos, trabalho a luz, a sombra e os contrastes (sempre me encantava com a luz e a sombra quando desenhava do natural). Assim, o resultado \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o de uma cena e n\u00e3o a c\u00f3pia de uma fotografia.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s essa interpreta\u00e7\u00e3o visual da cena come\u00e7am a execu\u00e7\u00e3o do desenho e o embate entre o artista, o papel e o grafite. Algumas coisas mudam durante o processo. O resultado n\u00e3o \u00e9 apenas a execu\u00e7\u00e3o de uma imagem pr\u00e9-definida, mesmo que o meu processo exija de mim uma elabora\u00e7\u00e3o esmerada. A pot\u00eancia de uma obra n\u00e3o depende disso, mas de como ela repercute, primeiro em mim e depois no p\u00fablico. Em todas as obras realizadas anteriormente havia a presen\u00e7a de pessoas, entre os estudos que perdi tinha feito alguns s\u00f3 com a paisagem. Ao circular pelo bairro senti a necessidade de sempre colocar a vida que l\u00e1 existe e estabeleci como regra a representa\u00e7\u00e3o de pelo menos uma vida em cada obra, fosse gente ou bicho. Pr\u00e9dios, ruas e cal\u00e7adas (com suas pedras e seus belos desenhos) teriam que ter pessoas que trabalham, gente se divertindo \u2014 como nos carnavais de 2015 e de 2025 \u2014, pombos, cachorros e gente que mora l\u00e1!<\/p>\n<p>Neste intervalo de dez anos o Recife Antigo me pareceu um pequeno territ\u00f3rio que diz muito sobre o grande territ\u00f3rio chamado Brasil. Extremamente desigual, descuidado, cheio de contrastes e de preconceitos, essa paisagem urbana com seus bancos, empresas, trabalhadores e moradores de ruas revela o fracasso de um modelo de sociedade que insiste em n\u00e3o dar certo. Como inevitavelmente essas coisas se refletem em meu trabalho, as Cr\u00f4nicas do Recife Antigo tornam vis\u00edvel, pelo menos em boa parte, a vida que, para muitos, na maioria das vezes, \u00e9 invis\u00edvel.<\/p>\n<p>Uma jovem m\u00e3e com seus filhos dentro da mesma carro\u00e7a que leva bebidas durante o carnaval, um pombo mutilado, um cachorro, uma La Ursa, gente conversando ou dormindo nas cal\u00e7adas. Entre essas vidas, uma chamou bastante a minha aten\u00e7\u00e3o! De bermuda, sem camisa e usando uma tornozeleira eletr\u00f4nica, um homem dormia deitado em frente a um port\u00e3o fechado. Entre duas picha\u00e7\u00f5es, uma placa de estacionamento proibido mostrava o que pode e o que n\u00e3o pode. A placa \u00e9 s\u00f3 para ve\u00edculos e n\u00e3o para gente!<\/p>\n<p>J\u00e1 na reta final da s\u00e9rie me deparei com uma senhora que tinha visto outras vezes. Da primeira vez que a vi perguntei se poderia fotograf\u00e1-la e ela disse que sim. Cadeirante e acompanhada por seis cachorros, sorriu enquanto eu a fotografava. Tentei desenh\u00e1-la mais de uma vez e n\u00e3o consegui. Na semana anterior ao carnaval a encontrei novamente na Pra\u00e7a do Arsenal e conversei com ela. Seguida pelos seis cachorros, contou que tinha mais dez em casa (os grandes e brabos), uma casa que recebeu recentemente em uma comunidade, mas n\u00e3o revelou qual, nem falou seu nome. Foi simp\u00e1tica e desconfiada ao mesmo tempo, apenas pediu um lanche pra ela e ajuda pros seus cachorros que disse serem sua fam\u00edlia. Perguntei \u00e0 senhora que vende os lanches se sabia o nome dela e ela respondeu: Rosa!<\/p>\n<p>Antes de fazer seu lanche, dona Rosa tirou de uma sacola v\u00e1rias vasilhas e espalhou pelo ch\u00e3o. Colocou ra\u00e7\u00e3o, reuniu sua fam\u00edlia (disse que nunca havia tido uma fam\u00edlia antes dos seus c\u00e3es) \u201celes s\u00e3o tudo para mim\u201d! Passei a tarde inteira fotografando Dona Rosa. Foram muitas imagens, dif\u00edcil decidir o que e como usar essas refer\u00eancias. Estava muito impressionado com ela e com o que estava sentindo depois desse encontro, para mim o mais perturbador de toda a s\u00e9rie.<\/p>\n<p>Dona Rosa aparenta ter mais de setenta anos e n\u00e3o teve uma fam\u00edlia at\u00e9, segundo ela, adotar os cachorros e cuidar deles. Vive de esmolas e durante a maior parte de sua vida n\u00e3o teve uma casa pra morar. Tentei me colocar no lugar dela e n\u00e3o consegui. N\u00e3o consegui imaginar por quanto tempo conseguiria viver nessas condi\u00e7\u00f5es. Demorei a encontrar uma \u201csolu\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica\u201d para representar tudo isso.<\/p>\n<p>Lembrei daquela jovem m\u00e3e com suas crian\u00e7as dentro da carro\u00e7a. Numa manh\u00e3 de carnaval com o sol a pino, descendo a ponte Maur\u00edcio de Nassau, n\u00e3o teve com quem deixar sua filhinha e seu filhinho e os levou pra garantir o sustento de sua fam\u00edlia. Isso para mim j\u00e1 era demais, por isso sa\u00ed retirando toda a decora\u00e7\u00e3o dos festejos e fiz um desenho representando o que realmente importava ali, a dignidade e for\u00e7a daquela m\u00e3e!<\/p>\n<p>O que dizer ent\u00e3o de Dona Rosa? Retirei todos os galos e adere\u00e7os da decora\u00e7\u00e3o, a orquestra de frevo que tocava naquela tarde, toda a decora\u00e7\u00e3o e os pr\u00e9dios do Pa\u00e7o do Frevo e mesmo o da Torre Malakoff e deixei o que mais importa para ela. <\/p>\n<p>Para mim, este \u00e9 um dos desenhos mais fortes de todas as cr\u00f4nicas!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Renato Valle Em 2015 iniciei uma s\u00e9rie de desenhos sobre o Recife Antigo e o seu entorno. Cheguei a fazer seis, e dois ficaram inacabados. Naquele mesmo ano mudei de endere\u00e7o e me envolvi com outros projetos. 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