{"id":1477,"date":"2026-04-30T00:07:21","date_gmt":"2026-04-30T03:07:21","guid":{"rendered":"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/?p=1477"},"modified":"2026-05-25T17:05:27","modified_gmt":"2026-05-25T20:05:27","slug":"imagens-de-uma-rebeliao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clientes.jotabosco.com.br\/testes1\/imagens-de-uma-rebeliao\/","title":{"rendered":"O jornalista e cineasta Paulo Cunha tem a imposs\u00edvel resposta"},"content":{"rendered":"<h1>Imagens de uma rebeli\u00e3o<\/h1>\n<p>&nbsp;<br \/>\n<strong>Por Paulo Cunha<\/strong><\/p>\n<p>Das experi\u00eancias luminosas que conhe\u00e7o, o cinema foi e continua a ser a mais marcante. Certamente porque \u00e9 multifacetada e envolve desde o gesto de sentar numa sala de proje\u00e7\u00e3o e deixar imagens e sons me carregarem, at\u00e9 a alegria de juntar um bando de amigos e amigas com uma pequena c\u00e2mera de super-8 para \u201cfazer filmes\u201d \u2014 n\u00e3o tanto para ser \u201ccineasta\u201d, com toda a pompa do profissionalismo, mas s\u00f3 para estar juntos, andar pelas ruas do Recife, ampliar os afetos. O cinema sentido como efeito de assistir ao belo\u00a0<em>Hatari<\/em>, de Howard Hawks, ainda crian\u00e7a, ao lado do meu pai, no Art-Pal\u00e1cio, e depois imaginar rinocerontes correndo disparados pela Avenida Guararapes, ao entardecer, quando a cidade se rosalaranja. Cinema compreendido como for\u00e7a t\u00e3o ampla que acaba por se insinuar na minha trajet\u00f3ria acad\u00eamica, definindo a escolha do tema do meu doutorado, levando-me a um concurso para ensinar na universidade. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso: trago em mim, por exemplo, a viv\u00edssima mem\u00f3ria de atravessar temerariamente o Aterro do Flamengo, da Gl\u00f3ria at\u00e9 a Cinemateca do MAM (para o desespero de amigos cariocas: \u201cN\u00e3o sejam loucos! Voc\u00eas v\u00e3o ser assaltados!\u201d), ao lado de Amin Stepple,\u00a0s\u00f3 para rever a chanchada\u00a0<em>O Homem do Sputnik<\/em>, de Carlos Manga, com Oscarito e Zez\u00e9 Macedo \u2014 e perceber que filmes como aquele, ao lado dos realizados por Glauber Rocha e J\u00falio Bressane, nos ofereciam uma vis\u00e3o clara, in\u00e9dita e profunda dos brasileiros. Um cinema que era de pel\u00edcula, mas tamb\u00e9m de papel, atrav\u00e9s dos livros de Godard ou de Eisenstein que compr\u00e1vamos na <em>Livro 7<\/em>\u00a0de Tarc\u00edsio Pereira e na\u00a0<em>S\u00edntese<\/em>\u00a0de Sueli Pereira e Murilo Alves \u2014 e n\u00e3o foram poucos, naqueles tempos sem Internet e sem\u00a0<em>streaming<\/em>,\u00a0os filmes lidos muito antes de serem vistos.<\/p>\n<p>Decorre provavelmente desse modo de sentir \u2014 de ser atingido pelos filmes \u2014\u00a0\u00a0a sorte de ter nascido e vivido na cidade do Recife, paisagem de uma paix\u00e3o antiga pelo cinema. Desde o comecinho do s\u00e9culo XX, com a instala\u00e7\u00e3o das primeiras salas de rua no bairro da Boa Vista, e rapidamente incorporando a realiza\u00e7\u00e3o de filmes. Inacredit\u00e1vel que uma cidade perif\u00e9rica, que lutava contra a decad\u00eancia econ\u00f4mica, fruto das espolia\u00e7\u00f5es punitivas do poder central contra a rebeldia pernambucana, pudesse ousar realizar primeiro document\u00e1rios governamentais e logo em seguida longas-metragens de fic\u00e7\u00e3o, produzidos por empresas privadas. Sempre considerei insano que, entre 1923 e 1931, o Recife tenha sido o maior centro regional de produ\u00e7\u00e3o de cinema do Brasil. A historiadora paulista Lucila Ribeiro Bernardet considerava que os treze longas do per\u00edodo er am fruto de um surto, uma febre que se abateu sobre n\u00f3s. Discordo: a produ\u00e7\u00e3o de cinema em Pernambuco, desde ent\u00e3o, \u00e9 parte da nossa rebeli\u00e3o, da nossa insatisfa\u00e7\u00e3o contra o empobrecimento, o colonialismo interno, contra a senten\u00e7a condenat\u00f3ria que surge, ainda hoje, quando ouvimos um forasteiro dizer: \u201cMas quem s\u00e3o voc\u00eas para se meter com cinema?\u201d<\/p>\n<p>A resposta \u00e9: n\u00f3s somos a f\u00faria, a tempestade, n\u00f3s somos a rebeli\u00e3o. Por isso Pernambuco cultiva tal vontade e tal pr\u00e1tica cinematogr\u00e1fica que vem de t\u00e3o longe, literalmente aos trancos e barrancos. Saber disso me faz sorrir quando percebo que novos cineastas e cr\u00edticos pernambucanos se expressam como se s\u00f3 agora estiv\u00e9ssemos inventando\u00a0<em>ex nihilo<\/em>\u00a0o nosso cinema. Trata-se de desconhecimento hist\u00f3rico, ou um tanto de arrog\u00e2ncia talvez, esquecer que houve um Edson Chagas (1901-1958), um Firmo Neto (1916-1998), um Fernando Spencer (1927-2014), um Geneton Moraes Neto (1956-2016), um Jomard Muniz de Britto (este viv\u00edssimo, gra\u00e7as a Deus), entre dezenas de outros, estes cinco absolutamente geniais, elos de uma longa cadeia criativa, um arco teso que h\u00e1 d\u00e9cadas lan\u00e7a no espa\u00e7o flechas de luz e de som.\u00a0<\/p>\n<p>Desde 1996, com a chamada Retomada do Cinema de Pernambuco, atingimos um patamar diferente. Voltamos aos longas, depois de um intervalo de duas d\u00e9cadas, desde o inusitado\u00a0<em>O Palavr\u00e3o<\/em>. Vinte anos depois da pornochanchada surrealista de Cleto Mergulh\u00e3o, a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos realizadores e realizadoras, a colabora\u00e7\u00e3o entre eles e elas, acabou por implantar novas plataformas de financiamento, com forte participa\u00e7\u00e3o governamental. O modo de produ\u00e7\u00e3o evoluiu aos poucos, se profissionalizou, equalizando as tecnologias (primeiro ainda o 35 mil\u00edmetros anal\u00f3gico, em seguida os sucessivos formatos digitais), formando t\u00e9cnicos qualificados, vendo florescer atrizes e atores de primeira grandeza e permitindo que os filmes fossem exibidos em festivais e salas do Brasil e do mundo. Foi o per\u00edodo em que se consolidou a ideia de que havia\u00a0\u00a0particularidades, ou peculiaridades, que contaminam os filmes criados em Pernambuco, quando a cr\u00edtica sudestina passou a abrir as p\u00e1ginas dos jornais para tentar entender o que estava acontecendo. Textos \u2014\u00a0\u00a0\u00e0s vezes carregados de ironia ou mesmo desprezo \u2014 que revelavam o \u00f3bvio: a mocidade independente \u201cdo Norte\u201d tem algo diferente para mostrar: os filmes autorais dos cora\u00e7\u00f5es futuristas pernambucanos.<\/p>\n<p>Muitos ainda se lembram do espanto total gerado pelo lan\u00e7amento de\u00a0<em>Baile Perfumado<\/em>\u00a0(L\u00edrio Ferreira e Paulo Caldas, 1996) no 29\u00ba Festival de Bras\u00edlia do Cinema Brasileiro. A plateia urrava literalmente, espantada com o que via.\u00a0Seguiram-se outras epifanias (ouso dizer), com filmes de Cl\u00e1udio de Assis, Renata Pinheiro, Marcelo Gomes, Hilton Lacerda, Katia Mesel, Marcelo Pedroso, Adelina Pontual, Pedro Severien, Kleber Mendon\u00e7a Filho, Camilo Cavalcante, Gabriel Mascaro, Mariana Brennand, Thor Neukranz, Douglas Henrique\u2026 A lista \u00e9 longa e injustamente incompleta, e seria ainda mais longa se fossem acrescentados os muitos jovens realizadores, que est\u00e3o apenas iniciando suas carreiras. S\u00e3o autoras e autores que hoje miram festivais de Cannes, Veneza, Berlim ou o Oscar. Trazem dezenas de pr\u00eamios e forte reconhecimento cr\u00edtico.<\/p>\n<p>A principal d\u00favida que paira entre os alien\u00edgenas \u00e9 a seguinte: como explicitar as marcas de estilo que perpassam tantas individualidades? \u00c0s vezes para nos encaixotar, ou para encontrar um lugar que nos caiba numa prateleira qualquer, mas outras vezes porque h\u00e1 evidentes correspond\u00eancias na produ\u00e7\u00e3o pernambucana. A pesquisadora Amanda Mansur foi uma das primeiras a enfrentar essa d\u00favida, em sucessivos trabalhos. Diz ela que h\u00e1 claras influ\u00eancias rec\u00edprocas entre cineastas que apontam para pontos de converg\u00eancia est\u00e9ticos, no m\u00ednimo recorr\u00eancias: o car\u00e1ter autoral e independente, o tensionamento com a produ\u00e7\u00e3o musical, a for\u00e7a da paisagem como protagonista, os interc\u00e2mbios com a cultura popular ou com os novos mitos urbanos.\u00a0<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dessas interse\u00e7\u00f5es, efetivamente vis\u00edveis, as principais qualidades da produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica de Pernambuco s\u00e3o a diversidade dos olhares e a colabora\u00e7\u00e3o. Aten\u00e7\u00e3o para o refr\u00e3o: se conseguimos tanto no cinema foi por ter permitido que cineastas pudessem desenvolver hist\u00f3rias a partir de suas pr\u00f3prias vis\u00f5es do mundo, seus modos de ver, do ch\u00e3o onde pisam, de suas caracter\u00edsticas de classe, ra\u00e7a e g\u00eanero. E por termos sido capazes de realizar os filmes com o suporte de outros cineastas, num jogo intenso de competi\u00e7\u00e3o-colabora\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>O cinema feito em Pernambuco n\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia de uma monocultura. Mas da tens\u00e3o das diferen\u00e7as. Cresceu por conta da capacidade de elaborar e financiar diferentes projetos, com escopos diversos: document\u00e1rios e fic\u00e7\u00f5es; curtas, m\u00e9dias e longas; projetos mais caros e os mais baratos. Filmes de homens e de mulheres; de gente branca e de gente preta. A sobreviv\u00eancia desse modelo ser\u00e1 determinante para que a experi\u00eancia audiovisual de Pernambuco continue sua trajet\u00f3ria criativa ascendente. H\u00e1 riscos s\u00e9rios no horizonte: a crescente depend\u00eancia de recursos federais, que chegam atrelados a crit\u00e9rios que n\u00e3o foram definidos localmente; o evidente surgimento de um sistema de castas\/classes entre criadores \u2014 ou seja, gente importante que j\u00e1 entra nas disputas por financiamento com suas demandas garantidas e uma esp\u00e9cie de proletariado cinematogr\u00e1fico que sofre pelas migalhas restantes; o jogo de cartas aparentemente marcadas nos comit\u00eas de <em>pitching<\/em>\u00a0dos editais; o apagamento das primeiras gera\u00e7\u00f5es de cineastas da retomada ou de antes ainda ativos.<\/p>\n<p>S\u00e3o riscos que outros sinais v\u00eam arrefecer, felizmente: a garotada voltando a curtir filmar em super-8; estudantes e rec\u00e9m-formados em cinema voltados n\u00e3o apenas para a dire\u00e7\u00e3o, mas para outros departamentos da produ\u00e7\u00e3o de filmes, inclusive para a cr\u00edtica, a pesquisa, a exibi\u00e7\u00e3o e a curadoria; novos projetos ousados de exibi\u00e7\u00e3o\/forma\u00e7\u00e3o como o Bar Super-8; a interioriza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, com especial destaque para o Agreste; a persist\u00eancia dos projetos mais experimentais (e n\u00e3o s\u00f3 do cinem\u00e3o para festivais); o crescimento das coprodu\u00e7\u00f5es internacionais.\u00a0<\/p>\n<p>Em resumo: se for poss\u00edvel defender e preservar um modo de\u00a0\u00a0financiamento da produ\u00e7\u00e3o abrangente, democr\u00e1tico e colaborativo, seguiremos com a rebeli\u00e3o pernambucana. Se, ao contr\u00e1rio, elitizarmos o sistema, se perdermos as ra\u00edzes, seremos esmagados pela mesmice.\u00a0<\/p>\n<p>Sejamos otimistas: nossa f\u00faria n\u00e3o vai se calar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagens de uma rebeli\u00e3o &nbsp; Por Paulo Cunha Das experi\u00eancias luminosas que conhe\u00e7o, o cinema foi e continua a ser a mais marcante. 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